“Natal não consagra nem desconsagra ninguém”.

O sábio Luís da Câmara Cascudo, dizia:

“Natal não consagra nem desconsagra ninguém”. Escritor, historiador, folclorista, etnógrafo, antropologista cultural, crítico, sociólogo, orador, conferencista, Luís da Câmara Cascudo possui, acima de tudo, o dom da prosa animada, viva, cintilante, com a faculdade rara de espalhar bom humor e irradiar simpatia. Ele se confundia com a sua cidade Natal, onde era amigo de todos, do mais humilde pescador das Rocas ao governador do Estado.

Moro há 25 anos nessa terra que nasci e vejo seus talentos e artistas tomarem o caminho do aeroporto/rodoviária em busca de novos horizontes e reconhecimento pois a noiva do sol limita o crescimento.

Recentemente conheci o trabalho do estilista Júlio César oriundo de Mossoró, radicado em Nova Iorque, atualmente, que se divide entre os ateliês localizados na Av. Rodrigues Alves, 1288, Tirol, Natal/RN (há três anos) e 325 West 38th Street #407- New York (há cinco anos).

Há 23 anos no mercado da moda, Júlio entrou pelas portas do Fashion Institute of Tecnology (FIT), onde estudou moda e modelagem sendo que o estilista copila em sua trajetória desfiles, coleções nacionais e internacionais. Vale destacar, a mais recente coleção Primavera/Verão 2019, titulada CAATINGA, que retrata um pouco da vida do estilista em Mossoró.

Sua criatividade de expande para linhas home com almofadas, acessórios como bolsas, chapéus e gravatas feitas a partir de fitas VHS. Ele também produz os moldes de vários modelos para a revista Vogue Patterns (sabe a nossa Manequim com os moldes que podíamos replicar muitos modelos dos editoriais da revista, pronto é essa versão da Vogue).

No ateliê em Natal a cliente pode escolher o modelo na arara, fazer os ajustes, se necessário, replicar o modelo num outro tamanho e tecido a sua escolha. Ou numa conversa com o estilista ter um modelo criado com exclusividade para qualquer evento.

No último sábado (25.05) Júlio realizou um desfile em Natal (Coleção Reflection – Desfile Ciclos) com peças da coleção caatinga e novas criações. Uma mescla de nordeste, caatinga, Nova York e colagens uma das grandes características do seu trabalho. Essa técnica consiste na sobreposição harmônica de tecidos de alta qualidade, somado a uma modelagem diferenciada.

Caatinga traz um resgate com sua própria estória, uma declaração de amor. Segundo Júlio: “CAATINGA, é uma coleção inspirada no meu desejo de contar um pouco da minha história através da moda. Minha infância no nordeste do Brasil. Toda a liberdade que uma criança deveria ter … eu tive. Lembro-me de trabalhar na terra do meu avô, alimentar animais, colher algodão. A fazenda ficava no meio do nada e ainda penso naquele lugar com muita gratidão e tento ter meus momentos de solidão quando adulto, como os tive quando criança. Como isso foi maravilhoso. Nós tínhamos recursos limitados, mas eu era um garoto feliz. Nunca imaginei que acabaria trabalhando com moda e seria capaz de contar minhas “Crônicas Visuais” daquela época”.

Começa-se a cada segundo novas oportunidades e maneiras de se fazer vida, e Júlio César pisa suave nos seus 50 anos. E talvez por isso a música “Ciclos” na voz de Maria Bethânia trouxe para o desfile um tom de nostalgia, como uma referência que marca uma história, sua história, nossa história. Porém é uma nostalgia consciente e em movimento, com o olhar no agora, na criação e na arte, como meio de vida. Júlio prioriza em seus shows o encontro, laços afetivos, construídos através de uma rede de artistas e amigos que agregam em sua criação. Não há como o trabalho não desenhar uma cartografia de lugares nos quais construiu sua trajetória: Brasil, México e Estados Unidos, o que torna seu olhar mais múltiplo e apurado. O show pode ser entendido em três atos. No primeiro a Coleção Caatinga ganhou destaque, e é nela que Júlio apresenta suas raízes, por ser um bioma exclusivo brasileiro. Do tupi: Ka’a [mata] + tinga [branca], esse tipo de bioma em tempos de seca os troncos e galhos ganham um tom esbranquiçado, e está em grande parte no nordeste brasileiro. No segundo ato o experimental entrou em cena, com novas peças e técnicas, modos outros de se fazer arte. E no terceiro as peças foram pensadas para festas e ocasiões de descontração.

“Recordo o passado inteiro
E as voltas
Que o mundo dá
Meu limão
Meu limoeiro
Meu pé de jacarandá”

[Trecho de “Ciclos” – Maria Bethânia]

Como diria o próprio mestre Cascudo na sua declaração de amor a sua terra: “Natal, minha cidade natal, é o cenário imóvel na minha memória. Natal foi a impressão primeira, o ambiente emocionador da minha meninice, adolescência e madureza. O homem é a cidade em que nasce. O Povo da minha cidade foi a minha curiosidade inicial, a pesquisa do repórter, a análise do estudioso. O Povo, na conivência, termina sendo a grande família anônima, na qual nós vivemos. Quem não tiver debaixo dos pés da alma a areia de sua terra não resiste aos atritos da sua viagem na vida, acaba incolor, inodoro e insípido, parecido com todos”. As palavras que conclamam o amor a Natal pertencem a Cascudo. São de 1978, quando ele tinha 80 anos.

E se o homem é a cidade que nasce, conforme nos diz Cascudo, é sobre essa cidade que Júlio nasceu, não Natal, mas sim Mossoró que ele se desmancha nesse momento, se refaz e trilha novos horizontes além do RN.

Por Roberta Pimenta